sexta-feira, 25 de março de 2011

De nouveaux

Tenho medo do perfume
que subjuga na própria miragem
o que de há de lírico
no cheiro de mim mesma.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Reencontro

Um fim de tarde nas montanhas, para lá do alto perceber o dentro, o indizível ... e então, ao descer, sentir um cheiro de vida,
e este deslocamento íntimo do amor. Era preciso chuva ...

Blog

Novo blog da minha gatinha
www.zoo-macemanu.blogspot.com

Um barato :)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Filha de peixe ...















www.mariemarieontheroad.blogspot.com

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Filha longe

Primeira vez longe, dói.
O jeito é acomodar o inexorável:
o corpo, continente do amor,
guardando a filha na barriga
pra deixá-la partir ...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Pensando bem ...

Minha alma
é de menina prendada,
vestidinhos de orfanato
camisola branca, rendada,
um primeiro namorado ...

Ah, e
Longos corredores
silenciosos, sendo
atravessados por bichinhos
livres, noite adentro.

Quero-quero

Quero-quero, pouco, mas preciso.
Que voar a dois exige profundidade de asas.

Sabedoria

Era quando
Calar-se, escutando os
estacados íntimos das coisas,
revelava o flerte enigmático
entre os restos de comida e o chão.
Para então saber de nós dois, coração.

À margem dum soneto / O resto é perfume

" Tudo cai! Tudo tomba! Derrocada
Pavorosa! Não sei onde era dantes
Meu solar, meus palácios, meus mirantes!
Não sei de nada, Deus, não sei de nada!

Passa em tropel febril a cavalgada
Das paixões e loucuras triunfantes!
Rasgam-se as sedas, quebram-se os diamantes!
Não tenho nada, Deus, não tenho nada!

Pesadelos de insônia ébrios de anseio,
Loucura a esboçar-se, a anoitecer
Cada vez mais as trevas do meu seio!

Ó pavoroso mal de ser sozinha!
Ó pavoroso e atroz mal de trazer
Tantas almas a rir dentro da minha!... "

Florbela Espanca

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Pequeno vôo do desejo

Era pra ser turquesa
Mas a cor é um capricho da luz.

Je me suis réveillée

Fui

Entre-aspas

Hoje resolvi ficar bonita.
Não queria esses versos
curtidos na culinária da arte:
aquela para quem acha que sabe,
para quem acha que prova,
para quem acha que tem.
Hoje resolvi ficar bonita.
E coloquei lá fora
um retrato simples
De mulher.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Moi

É duvidando um pouco da beleza
que há nas madrugadas agudas
em que sou-lidão,
que me achego em segredo de alma
assombrada nas núpcias líquidas
em que me desfaço de mim.

Filha

"Mami, não fica chateada,
você não é chata, você está chata !
Sacou ? "

Pequena Frank me ensinado gramáticas do afeto hoje pela manhã.

Notação

Se todas as estrelas que vemos estão mortas
e nosso entorno é pura defazagem,
melhor admirar o perpétuo da luz.
O céu é bonito, mesmo em falso.

História

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Musoléu

Em alemão há palavras que não existem por aqui.
Em francês não há gerúndio e a palavra objeto é
a mesma do sujeito.
Em chinês o desenho do sentido depende do que vem ao lado.
Mesmo que não se aprenda, é bom saber que
para ser, há muitas línguas além de mim.

Praia

Gosto de sentir o gosto puxado da fruta
apagar-se no inquérito do tipo de álcool
escondido entre os pontinhos pretos do kiwi.
Distinguir a idade do limão pela raspa
da casca esquecida na pele branca e que chega de repente
para encontrar a língua e segurar mais forte
aquela vontade de desenrolar ironias.
Se é suficiente para aguentar o apagão
de almas no nu das praias, não sei.
Mas passa o tempo.

É,

Parece que na mulher a falta é cintilância ...
E mesmo que transbordem sentidos,
tenho sede.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

2010

Uma forte correnteza levou meus desejos, minhas promessas ... estava interessada em observar o caminho das baratas, das aranhas nas pedras, desses bichos da terra tão revestidos de mar, ali no canto da baleia. E também em imaginar se uma baleia realmente cantaria e como seria essa voz.
Pois bem, ali estava - a despeito desse passeiozinho íntimo - uma parafernália afetiva inocente que compramos a prestação para um minuto molhado no champanhe e a disneylândia de fogos artificiais entupindo os ouvidos para o óbvio: inacreditavelmente chatos, os seres humanos.
Que 2010 venha regado dessas certezas, s'il vous plaît !

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mais flores

"Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim..."


Cecília Meireles

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Objeto














o pequeno outro
é sempre de mim
e se não é dentro
é aqui
fora não é nunca
porque não é contingente
é ali
vê o bonito?
há sempre flores
na perplexidade

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Chuva no calor

Entrei em casa,
Sublinhei vocês dentro de mim
Para destacar a linha do amor
da fina camada de mim
que molha o assoalho
e range esse barulho estranho
Como chuva no calor

Encontro

Queria grudar no vidro o meu nariz de menina
Curioso do frio entre mim e lá fora
Depois, no entendimento sumário do prazer
Encostar ali os cílios úmidos e alongados
para a primeira aprendizagem do sublime de
abrir e fechar os olhos.
E assim permanecer.
Até esquecer o corpo no definitivo do vidro.
Um milagre para todos.

domingo, 8 de novembro de 2009

Pontuando

Bom desprendimento reticências
Parágrafo, travessão
Como se prendimento houvera des alguma coisa

segunda-feira, 22 de junho de 2009

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Existir

O corpo é exato, tem espessura, mas não limite. Espalha-se às vezes em ruído e ternura, encolhe-se muito quando há dor. Acasos de amor no veludo da pele. O corpo tem superfície expansiva, o da mulher muito mais: barco de gozo, canção de Jade ... lá onde o imperativo da carne afoga-se no signo da anterioridade, o singular e o nosso abrem canto em suas grades.

Maior

Os quadris largearam,

líquidos, enormes,

cobrindo o chão para que

ninguém mais pise.

A pele, clara, ríspida,

de linhagem infantil,

sombreou embaixo da vista,

para entender o sufoco

que ainda carrega no peito.

As costas endureceram

mais 5 anos e recusaram

sua natureza de curva.

Envelheço.

O corpo resiste, insiste, revela.

Unge no mundo

o parto da linguagem.

Eros-dito

Um dia a borra inócua

tornar-se-há um ponto antídoto.

Contra, inter, in, venções

para este sentido barroco, perdido.

Meu texto ordinário, 

engolido na articulação do romance,

insurgirar-se-há então a conteste,

riste em punho, benesse,

no sagrado bem-dito que

sobre mim, não por acaso,

acontece.

Inverso proporcional

Foi num dia escuro

que resvalei o segredo:

voar, mais que meu dom

é minha âncora.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Sarau@Poéticas














Pequeno intercâmbio poético de blogs.
Inscreva-se: lesi@uol.com.br
dia 29 de maio de 2009, 21:00h

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Fruição

Estado em que o sujeito e a coisa estão em pleno verbo.

Haikai

Entre o ver e a coisa, azul
Entre o ser e a coisa, signo
Entre eu e você, o quê?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

terça-feira, 5 de maio de 2009

Letra Negra

Essa dor é permanência
escurecendo o corpo
no Tempo.
Carne negra, suores,
o acontecer pródigo da matéria.

Lepra-letra-negra
Minha garganta laboriosa é
claustro de gozo.
Por Isso te digo:
É no inexorável que sou.

Para que no sublime sortilégio da voz,
o fervor conheça quentura.
Berço bendito da poeta
Lepra-letra-negra
Essa sua cor é azul.

(para Lu)

Lambe-Lambe

Posso dizer do limbo, 
que é espesso e antigo.
Limbo lambe-lambe
nas paredes do corpo
desabitado.

Tantas palavras para o Nada.
Para este lugar limbo-nada
que atravessa inaudito
os minutos desavisados

Posso dizer do limbo,
que é obediente e perpétuo.
Limbo lambe-lambe
nas paredes do corpo
amado.

O Nada ladra em mim
voluptuosamente
dia e noite
exigindo palavras:
humildade, coragem,
amor.

A vida como ela é

Memória é forro de linho
num chão de madeira.
Lareira acesa em sopro de deuses,
na espera surda d'uns amantes.
Que podem ser de qualquer
tipo, crê ?

Nome próprio

Meu pai me queria Renata, e foi o único desejo de nome que ouvi dele, cisma de liberdade - desde que corintiana. Meu avô me queria Marília, mas tinha que ter Gabriela, rima de inteligência. Esses nomes todos, gosto de descascá-los feito criança interpelando a fruta: de Renata, nata, que está no leite - quentura, manhã e silêncio. De Marília, mar e ilha, - vastidão e limite, solilóquio poético para existir. E Gabriela, porcelana, nunca-vou-casar, morreu. Mais forte foi minha mãe, que numa lírica de muitos anos, escorregou seu nome dentro do meu, marcando na raiz as asas que não tenho.

Jazz

























Aqui jaz um traço,
um percalço,
um filigrama,
a umidade
de toda mulher.

Aqui um olhar abaixo,
um sentido,
uma mortalha,
há uma idade
para toda mulher.

Se Oriente



Dentro é assim

"Eu sei, quem ama muito é escravo.
Mas não obedece nunca de verdade."

(Guimarães Rosa, in não sei onde)

Retificação

Para o mesmo lugar, flores.
Para outro lugar, nomes.

Corpo

Quando posso, salvo muitos dedos de prosa em mim.
Pra não deixar de amineirar o corpo na terra mais terra do meu dentro.
Com pinga.

A mulher IN SISTE




















De quem são esses olhos?

Onde está ?




La bruja

“ Te penso.
E já não és o pensado.
És tu e mais alguém
No informe, nos guardados
Alguém
E tu mesmo sem nome, imaginado.

Te penso
Como quem quer pintar o pensamento
Colorir os muros do passado
De umas ramas finas, mergulhadas
Num luxo de tinturas
Te penso novo e vasto.
E velho
Igual a fome que tenho das funduras.”

(Hilda Hilst em Cantares)

A Razão Pura

Crítica da Razão Pura



segunda-feira, 4 de maio de 2009

Exercício de lembrar

Lembrar um espaço, num tempo, é assim:
Um frasco de pigmento fazendo ruído entre o pincél e a tela, 
tinha o cheiro do azul, mesmo quando caía no chão.
Uma vitrola arriscando em falso acordes do Satie,
dispunha da única possibilidade da nota. 
E significava.
Um Hopper, pra mim, sempre foi sem nenhuma esperança.
Mas eu amava.
As memórias do Manoel são inventadas.
As minhas não permitem verbos na mesma conjunção.
Eu sou desgarrada.

21

Mas João, teu corpo é uma memória falsa.
Feito uma sombra imolada na minha escuridão.
E esse teu corpo santo cravando certezas na nossa irmandade
faz cores, ah, esse pano quente nos teus olhos ...
Que adormeceram tão cedo em mim.

Feito Amor










Manga Rosa

A manga você gosta
a rosa róseo gosto
da boca na manga

Brincar,
Descascar risadas,
Salinas quentes

E na têmpora da fruta virgem
Surrupiar o 
vestido rosa,
Criança

Infância



















Douasa.
Fora da cama, ela me olha.
Perna alongada, distendendo as dores.
Quer respostas. Não tenho.
Mas perto dela, suavidade.
E a memória nossa, de meninas, é como um berço descansando os erros.
Amor alongado nos anos, estendendo braços, pernas, cabelos, bocas ...
Esta dança louca.
Dourada.

Paralaxias ...









Um cavalo vê as coisas oito vezes maior e angulosamente.
E você?

8 anos




















Mãe, se poesia é rimar a palavra
com o que a gente tá sentindo ...
o que acontece quando a gente
sente mais do que existem palavras ?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Feito eu

"Quero voltar pra casa,
pro meu quarto, pra minha cama,
meu cachorro que me dê uma lambida.
Vida.
Quero voltar pro ócio
sem sócio, negócio,
desligue o holofote
porque eu já errei o passo,
desligue, desligue."

Elisa Nazarian

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pípi Meialonga

Tudo bem que os desenhos são da Lauren Child (eu já quis ser ela quando crescesse hehe) ... tudo bem que a Astrid Lindgren fez o livro para sua filhinha adoecida há muitos e muitos anos atrás ... e tudo bem também que ela lança mão do dom supremo das crianças, a imaginação, para construir uma menininha que flutua acima do ceticismo massacrante da educação.
Mas o fato é: Pipi Meialonga, a personagem mais cult do mundo infantil é (vamos admitir) uma pequena psicótica! Eu adoro o anarquismo dela, o charme das idéias, o jeito atrevido e ao mesmo tempo doce com que arruma alternativas para se safar do positivismo enfadonho do mundo, mas peraláaaaaaaa: ela faz uma saída pela direita muito perigosa se tomada ao pé do letra. Um exemplo meio duvidoso de coragem e onipotência que coloca muito perto do abismo crianças que já vivem engolidas no excesso de sentidos. Astrid Lindgren diz que faz livros para a criança que mora nela ... vamos relevar o fato dela ser sueca, gente. No Brasil de cada dia, nossas crianças rebolam. Ou não.


segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Travessia

"Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? " Guimarães Rosa

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira, o filme

Fui ver Ensaio sobre a cegueira e sai com a sensação de ter visto um ensaio sobre o seu oposto. O filme é de um requinte visual - o ouro e o óbvio das boas publicidades - que, de cara, o torna cego para as surpresas que nos reserva o bom cinema. Recurso repetitivo que o diretor não cansa de plantar em seu jardim cinematográfico. Excessivamente fiel, diriam as más línguas.
Mas Saramago vence - olha o desatino! -. O texto da estória sustenta a retórica arredondada de Fernando Meirelles. Hollywood não faria melhor, apesar de que a Julianne Moore ficava melhor lá mesmo: ao menos linda, ao menos ruiva, ao menos indo em direção à claridade da janela rebolando plácida com o copo de leite Molico nas mãos e não com a tesourinha Hitchcock.
E quis tentar não ser rude, juro. Que de rude basta a pobreza da generalidade e a brancura da infância dos sentidos violando o gozo nosso de cada dia. Não à toa, o estupro das senhoritas mal cheirosas me disse tão pouco sobre as sombras humanas. A obviedade blinda a capacidade de se estarrecer diante dos horrores - houve holocaustos na nossa história que nos abriram bem os olhos. 
Sobrou pouco, para os meus. Mal derramei uma lágrima na linda cena em que o senhor pirata negro toca o coração da jovem madalena numa declaração pública que por cegueira se fez íntima ... e fui levada a conformar-me no amanhecer da visão oriental, porque reteve tudo na própria iconicidade: no mar de leite, a colher do real dissolveu todas as fantasias. Graças a Deus, ops, à Meirelles.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

dois mil e oito ...

"...Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância."

Julio Cortázar - Histórias de cronópios e de famas

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Mulher Maravilha

Eu confesso. Aos 6 anos a Lynda Carter era a minha ídala.
Foi numa noite-maravilha, muito inspirada por sinal, que o Papai Noel deu o ar de sua graça num vôo razante pelas minhas fantasias de menina. Corpete vermelho + micro short colante azul + laço mágico, braceletes e uma mega dourada faixa nos cabelos (arã, 6 anos) ... Uau, não é pouca coisa acordar Mulher-Maravilha !!! Sorte das meninas da geração 70, que tinham onde apoiar a morenice dos cabelos e as brasileiras curvas vindouras.
Entre a pasmaceira fútil da Barbie e as incríveis aventuras ao lado de amigos super heróis ah! ficamos com ela.

Ps: Mulher Maravilha, 3ª Temporada Completa, 8 DVDs - taí um presente de Papai Noel que muitas balzaquianas curtirão.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Um grou canta na sombra. Sua cria responde (I Ching)

Confúcio comenta a respeito dessa linha:

"O homem superior permanece em seu aposento. Quando ele se expressa adequadamente, em palavras, encontra aprovação mesmo a uma distância superior a mil milhas. Quanto mais da parte daqueles que estão próximos! Se o homem superior permanece em seu aposento e não se expressa adequadamente em palavras, encontra oposição mesmo a uma distância superior a mil milhas. Quanto mais da parte daqueles que estão próximos! As palavras brotam do interior de uma pessoa e exercem influência sobre os outros. As ações surgem próximo à pessoa e tornam-se visíveis à distância. Palavras e atos são como os gonzos das portas e a mola da besta do homem superior. Movendo-se, geram a honra ou a desgraça. Através de suas palavras e atos o homem superior move o céu e a terra. Não é então necessário ser cauteloso?". 

São estas palavras que me tocam.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Prelúdios intensos para os desmemoriados do amor - Hilda Hilst

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Uma pequena estrela nas estantes

Contracapa:
"Um menino, uma marionete, um homem de teatro e ... um lobo! Com estes quatro personagens e um enredo de grande poesia, A pequena marionete conta uma história de apelo universal, que envolve leitores de todas as idades. Empregando unicamente o lápis, o papel e uma boa dose de sensibilidade e imaginação, a artista belga Gabrielle Vincent criou um livro especial: uma narrativa sem palavras, na qual os desenhos permitem vários níveis de interpretação e se gravam no coração do leitor como só acontece com as verdadeiras obras de arte."

Valentina - Guido Crepax

Valentina, a mais charmosa personagem dos quadrinhos eróticos de Crepax. Demais.

Alice

"Depois, por súbito silêncio tomadas,
Vão em fantasia perseguindo
A criança-sonho em sua jornada
Por uma terra nova e encantada,
A tagarelar com bichos pela estrada
- Ouvem crédulas, extasiadas.
E sempre que a história esgotava
Os poços da fantasia,
E debilmente eu ousava insinuar,
Na busca de o encanto quebrar:
´O resto para depois ...´
´Mas já é depois!´
Ouvia três vozes alegres a gritar."
............................................................
Esta é uma edição comentada e fac simile de Alice no país das maravilhas e de Alice através do espelho. Impecável, cheia de intervenções curiosas nos rodapés e ilustrações originais de John Tenniel.

Hiroshima mon Amour

Este filme me acordou para o cinema aos 16 anos. A direção é de Alain Resnais, e o tema uma espécie de estréia da Nouvelle Vague. Para além das imagens, ouça o texto, da Marguerite Duras, que é absolutamente lindo.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Babel

Fantástico.
O diretor Alejandro González Iñárritu fecha com chave de ouro sua trilogia. Para quem não viu: Amores Perros, 21 gramas e Babel ... sem comentários ...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

andei a ouvir ...

Se essa rua, se essa rua fosse minha ...
eu mandava, eu mandava ladrilhar...
com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes,
para o meu, para o meu amor passar ...

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Certinências

"Só quando se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põe ponte ..." (Guimarães Rosa)

Semântica

Tem umas palavras que deixo guardadas em gavetas secretas.
E qdo perco a chave?
Aumento o vocabulário.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

e o vento levou

Alguns homens despertam o que temos de pior: a Scarlet O Hara adormecida em toda mulher.

A vida Clara da maternidade


"A minha Casa é guardiã do meu corpo

E protetora de todas minhas ardências.

E transmuta em palavra paixão e veemência."

(HH, júbilo, memória, noviciado da paixão)


A vida com ela é mais que líquida: sólida.

As aventuras de Azur e Asmar

Mais uma pérola do cinema infantil. Uma parábola árabe que encoraja novas perspectivas para o Mito do Graal. Aqui o Graal é a Fada dos Djins. E todas as instâncias simbólicas impregnando o filme através das lindas cores das feiras marroquinas, do movimento do mundo fantástico de bichos e superstições e pasme!, no alinhavo semântico que se dá através da convivência entre duas línguas tão diferentes (e o ajuste de contas entre dois irmãos).
Adoro filmes que não substimam a inteligência e a sensibilidade da criança. Esse, sem dúvida, faz parte deles.
** Na Livraria da Vila acaba de chegar um livro com as imagens do filme. O texto é tão tenebroso quanto a dublagem em português do filme, mas vale pelas imagens (copy and paste).

A rampa - Serge Daney - cahiers du cinéma 1970-1982

"O cinema é então em parte ligado à tradição metafísica ocidental, tradição do ver e da visão, na qual parece realizar a vocação ´fotológica´. O que é a ´fotologia´? Poderia ser o discurso da luz? Um discurso teleológico certamente, se é verdade que a teleologia consiste em neutralizar a duração e a força em favor da ilusão do simultâneo e da forma (Derrida)."

A rampa: temos aqui o pensamento enviezado (e atávico) de Serge Daney, numa propulsão magnífica tela adentro. Juntando seus melhores textos sobre cinema publicados nos famosos Cahiers du Cinéma, ajustados num período específico (1970-1982) e pensados sobre o tapete do estruturalismo francês.

"Assim herdávamos a aporia que vem daí. Porque aquilo que permite a esse olhar dirigir-se - a tela - torna-se objeto impossível. Ao mesmo tempo, esconderijo e janela, abertura e hímen. Invisível, torna visível; visto, torna invisível."

Está a venda na 2001 mais próxima de você. Para os cinéfilos, os críticos e um mais ainda da coletividade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Gotan Project - Lunático


Doze faixas de tango e música eletrônica misturados de um jeito delicioso. O grupo é parisiense, mas é claro que há um argentino temperando tudo.
Dance !!!

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Codinomes

Com tantos pianos fortes na família, minha filha quer violino. Ufa.

http://www.youtube.com/watch?v=3jey-OmaKUM

** Meninas, a Vanessa Mae deixa a Vanessa Hudgens (HSM) no chinelo em todos os quesitos necessários a um bom ídolo: linda, talentosa e carismática !!! Quando eu crescer eu quero ser ela :)

Grupo Galpão ..

"O céu se serviu do amor e fez todos castigados.: os Montéquio e os Capuleto, por fraterna dor irmanados, findaram as discórdias e um a outro abraçados, prometeram-se em louros lado a lado estátuas aos filhos eternizados. No definitivo da história, Romeu Lua e Estrela Júlia celebraram o circo céu das paixões abrindo livre vereda no dentro do ferro das prisões. O sinhô siga, pois então caminhozinho seu, enquanto eu desarmo o miúdo circo meu, para noutras praças cantar a sorte mais triste que já aconteceu. O baralho de amor e morte da tragédia de Julieta e de Romeu. " (faixa 11)

Lindo, lindo, lindo, lindo, lindo. Se eu fizesse teatro, eu queria fazer o que eles fazem. Lúdico, itinerante, poético ... os mineiros cavam na própria terra um jeito muito deles de fazer arte. Neste cd, duas peças. Em Romeu e Julieta, o grupo editou as músicas mais bacanas das nossas serestras antigas, adaptando-as ao texto de Shakespeare. Delicado e surpreendentemente brasileiro. Em A Rua da Amargura, um olho no aspecto mambembe das procissões católicas, adaptado na paixão de cristo mais genuína da nossa terra.

** Tanto este cd quanto os dois dos Meninos de Araçaí estão finalmente a venda na Livraria da Vila. Corram.

Meninos de Araçaí ... o belo horizonte das canções


Joni Mitchell: Hilda Hilst da música ...musa




quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O que você escutou aí dentro?

Música signo da mãe: Shubert Impromptu Op.90 No.4
http://www.youtube.com/watch?v=RtZCVCw337U

Música signo do pai: Chopin - Fantasie Impromptu
http://www.youtube.com/watch?v=f9wYk0bQJbo

Música signo da filha: Corpse Bride
http://www.youtube.com/watch?v=s7A7ZFf9zjs

Glenn Gould

Dê uma navegada no youtube atras de Glenn Gould. O intérprete que nao se define. As fugas de Bach dele sao muiiiiito interessantes. Aliás so ele pra acordar Bach no state today dos ouvidos contemporâneos hehe.
Um Mozart
Um Bach
** tem um filme: ' 32 pequenas cenas sobre Glenn Gould ' que vi no cinema uns 10 anos atras e nunca achei em DVD. Se alguem souber ...

A Barriga do Arquiteto: Meta Greenaway

Um dos primeiros filmes de um cineasta que prima pelo rigor estético, A Barriga do Arquiteto é um legítimo avant guard. Cheio de plots simbólicos, temos uma narrativa clássica sendo digerida ao longo da história. Um arquiteto americano chega à Itália para organizar uma exposição de um arquiteto francês [Boullé], que é o ícone de toda sua formação. O personagem fica então colado num espelhamento obsessivo que vai se desenvolvendo ao longo do filme - que se funda através de dialogismos: construção e corpo, morte e nascimento, originalidade e simulacro.
O personagem começa engolido no seu sintoma: obcecado por sua própria barriga, a narrativa vai se produzindo durante os nove meses de gestação – da exposição, do filho e da doença. É assim que o filme apropria-se da idéia de tempo para amparar todo seu desenrolar conceitual. Dividindo-se em 7 etapas, o roteiro inscreve na película a própria história da arquitetura visionária de Roma – sujeito protagonista parindo novas estéticas, incluso o filme, portanto, meta-arte, num paralelo claro entre cinema e arquitetura. Gosto de pensar também na estrutura-metrônomo desse filme, em três paradigmas: A imortalidade, o estado voyeur a que o ser humano é submetido na fração de vida que lhe é concedida e em como a escolha da neurose configura sua condição de signo.
"A imortalidade é possível graças à arte e as criações humanas?"
Esta parece ser a pergunta que o cineasta elegeu. Portanto, a questão da imortalidade trabalha no câncer de intestino desse personagem. E também em toda a cadeia significante que pode ser construída ao longo do filme.
Primeiro, os desenhos de Boulée são significantes claros das formas arredondadas da mulher. São úteros, muitas vezes gravídeos, que aparecem nas imagens de seus desenhos. Em muitas cenas do filme as formas arquitetônicas arredondadas dos monumentos de Roma são retomadas em simetria com os seus desenhos. Há também convites claros para significados óbvios: torres, pirâmides e outros símbolos fálicos atravessando em pano de fundo. O filme começa, aliás, dentro de um típico símbolo fálico: um trem. Um trem adentrando Roma. Dentro da cabine, o casal protagonista está transando e uma imensa janela de vidro tem as cortinas abertas (referência à pulsão escópica de novo). Esta é a primeira cena do filme. É a cena geradora. Aliás é a cena em que eles geram o filho.
O espaço cinematográfico é, por excelência, o espaço do voyeur. Torna público e observável o que é privado e secreto. No filme há outra cena que remete particularmente a este estado de voyeurismo: o arquiteto e um menino que assistem pela fechadura de uma porta uma cena de adultério. Nesse momento, vinga o desejo de comentar – no interior e no exterior do contexto cinematográfico – a condição escópica a que ficamos humanamente submetidos (isso também é paradigmático quando pensamos que o filme gira em torno do tema de uma Exposição.)
Temos também um personagem/arquiteto que é um glutão. Insaciável na sua inconformidade a respeito da própria mortalidade começa a repetir a compulsão por comida numa cadeia de evocações miméticas da própria barriga. À medida que vai adoecendo a mente nessas questões, vão tomando corpo uma série de repetições de imagens da barriga de uma escultura que ele xeroca, desenhando sistematicamente nessas cópias os alimentos que ele mesmo ingere e reproduzindo cópias sem parar. Ele gesta a própria neurose numa metalinguagem impressionante. Converte a gravidez da mulher (para a qual ele é cego) no próprio corpo invertido. Quem cresce no seu ventre não é um filho, mas um câncer - que não deixa de ser uma forma autônoma de doença, portanto um sujeito -.
Num registro intencional do desenvolvimento de sua obsessão, passa a relatar, a inscrever (não é esse o desejo do artista?) no corpo da história (representada por Boulée) sua própria história. Este contato paranóico delirante (cartas a um ídolo morto) aplaca sua angústia de mortalidade. Tudo no filme acontece em espaços amplos, abertos, numa contraposição interessante com o espaço comprimido da barriga. Condenados na dialética. Temos um homem aprisionado no próprio narcisismo e na própria impotência – qual maior castração humana senão a morte? Nada para este personagem é cognoscível. Nada resta. Para não perder o filho/inscrição que cresce no ventre da mulher é que ele decide pelo suicídio. Garante sua continuidade metafísica na sucessão espiritual – e natural - do filho que chega. Que nasce no momento de inauguração da exposição. Signo dado a ver. Ele, sombra desnorteada que perambulou sendo destituído de recursos a história inteira, constrói a sua do alto do parapeito de um monumento. Retira do paletó objetos pessoais e deposita-os no muro a sua frente. É assim que ele circunscreve-se na imortalidade da construção arquitetônica: tornando-se uma. Seu happening: da própria barriga para o mundo, eis a cena dupla desse momento! Seu movimento psíquico é o mesmo. Incapacidade metafórica pura, este homem precisa reter seus símbolos no corpo físico. Inverte isso na cena final: momento em que ele - mais uma vez numa elucidação escópica - se coloca acima a olhar para baixo, lançando-se para trás (ou pra frente?) num suicídio reparador.

Memórias Inventadas - A infância, por Manoel de Barros

" (...) Nunca escondi aquele meu delírio erótico. Nunca escondi de meus pais aquele gosto supremo de ver. Dava a impressão que havia uma troca voraz entre a lesma e a pedra. Confesso, aliás, que eu gostava muito, a esse tempo, de todos os seres que andavam a esfregar as barrigas no chão. Lagartixas fossem muito principais do que as lesmas nesse ponto. Eram esses pequenos seres que viviam ao gosto do chão que me davam fascínio. Eu não via nenhum espetáculo mais edificante do que pertencer ao chão. Para mim esses pequenos seres tinham o privilégio de ouvir as fontes da Terra." (Iluminura número 5)

Saudades do meu avô.

É ladrão de mulher ...

Na verdade o livro rouba o coração das crianças também. As imagens são lindas, o recorte histórico é super bacana e a homenagem emociona.

Tá a venda lá no Galpão. O meu eu não empresto.





Solas de Vento

Les hommes aux semelles de vent
Teatro Gestual pela Cia Solas de Vento
"Com elementos de dança e técnicas circenses, o espetáculo aborda uma situação de convivência forçada entre dois estrangeiros, suspensos em suas malas, questionando o modo de olhar o 'Outro' ".
Criação: Bruno Rudolf e Ricardo Rodrigues
Direção: Rodrigo Matheus
Teatro do Sesc Ipiranga, quartas, as 21h.
A galera ensaia no Galpão do Circo e ficamos com água na boca !!!
Eu e Maricota iremos burlar a faixa etária de 10 anos. Rendam-se :)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

1. mulheres do mundo ; 2. homens do mundo

Dove: http://www.youtube.com/watch?v=iYhCn0jf46U
Paródia: http://www.youtube.com/watch?v=7-kSZsvBY-A

To Christ it

Javaceff Christo (1935), artista búlgaro, apropria-se da geografia, do entorno, em intervenções realizadas no espaço público: ele embrulha, com telas ou tecido, monumentos, construções arquitetônicas, objetos comuns, trazendo à memória circundante um lapso significante inusitado e provocativo. O espaço geográfico como campo contaminado de subjetividades, é lugar de inscrições. O artista retoma os ready mades de Marcel Duchamp, retirando do objeto sua função primária para inscrevê-lo no campo simbólico.

Ao lado, uma polaroid de uma série que fiz com um amigo em 1998, de barracas de camelô espalhadas no centro da cidade de São Paulo. As barracas são embrulhadas em lona azul diariamente para que fiquem protegidas durante a noite. A série elabora um enunciado significante (a barraca azul como obra) que dialoga com o manifesto artístico de Christo, numa brincadeira poética. A periferia do discurso visual não remete a nada, é horizontal. Mas é no ruído gerado pelas imagens e na livre associação que a gramática de um sentido é adquirida.

** Em Paris, virada de 1999/2000, Christo fez embrulhos lilases, transparentes, nas árvores ao longo da av Champs Élysées ... andávamos e imagens de filmes eram projetadas nessas árvores, entidades a devir. E deslizávamos como dentro de um cristal. Deslumbrante. Interessante: um dia antes do Reveillon do século, um tufão devastou boa parte de Paris. E os véus lilases de Christo acabaram sudários no chão. A natureza também faz narrativas!