quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Mais flores

"Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim..."


Cecília Meireles

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Objeto














o pequeno outro
é sempre de mim
e se não é dentro
é aqui
fora não é nunca
porque não é contingente
é ali
vê o bonito?
há sempre flores
na perplexidade

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Chuva no calor

Entrei em casa,
Sublinhei vocês dentro de mim
Para destacar a linha do amor
da fina camada de mim
que molha o assoalho
e range esse barulho estranho
Como chuva no calor

Encontro

Queria grudar no vidro o meu nariz de menina
Curioso do frio entre mim e lá fora
Depois, no entendimento sumário do prazer
Encostar no vidro da janela os cílios úmidos e alongados
para a primeira aprendizagem do sublime de
abrir e fechar os olhos.
E assim permanecer.
Até esquecer o corpo no definitivo do vidro.
Um milagre para todos.

domingo, 8 de novembro de 2009

Pontuando

Bom desprendimento reticências
Parágrafo, travessão
Como se prendimento houvera des alguma coisa

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Retorno do recalcado

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Existir

O corpo é exato, tem espessura, mas não limite. Espalha-se às vezes em ruído e ternura, encolhe-se muito quando há dor. Acasos de amor no veludo da pele. O corpo tem superfície expansiva, o da mulher muito mais: barco de gozo, canção de Jade ... lá onde o imperativo da carne afoga-se no signo da anterioridade, o singular e o nosso abrem canto em suas grades.

Maior

Os quadris largearam,

líquidos, enormes,

cobrindo o chão para que

ninguém mais pise.

A pele, clara, ríspida,

de linhagem infantil,

sombreou embaixo da vista,

para entender o sufoco

que ainda carrega no peito.

As costas endureceram

mais 5 anos e recusaram

sua natureza de curva.

Envelheço.

O corpo resiste, insiste, revela.

Unge no mundo

o parto da linguagem.

Eros-dito

Um dia a borra inócua

tornar-se-há um ponto antídoto.

Contra, inter, in, venções

para este sentido barroco, perdido.

Meu texto ordinário, 

engolido na articulação do romance,

insurgirar-se-há então a conteste,

riste em punho, benesse,

no sagrado bem-dito que

sobre mim, não por acaso,

acontece.

Inverso proporcional

Foi num dia escuro

que resvalei o segredo:

voar, mais que meu dom

é minha âncora.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Três Olhares
















Acesse http://www.ensaios3olhares.blogspot.com/ e inscreva-se !

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Sarau@Poéticas














Pequeno intercâmbio poético de blogs.
Inscreva-se: lesi@uol.com.br
dia 29 de maio de 2009, 21:00h

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Fruição

Estado em que o sujeito e a coisa estão em pleno verbo.

Haikai

Entre o ver e a coisa, azul
Entre o ser e a coisa, signo
Entre eu e você, o quê?

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Fio de Ariadne

terça-feira, 5 de maio de 2009

Letra Negra

Essa dor é permanência
escurecendo o corpo
no Tempo.
Carne negra, suores,
o acontecer pródigo da matéria.

Lepra-letra-negra
Minha garganta laboriosa é
claustro de gozo.
Por Isso te digo:
É no inexorável que sou.

Para que no sublime sortilégio da voz,
o fervor conheça quentura.
Berço bendito da poeta
Lepra-letra-negra
Essa sua cor é azul.

(para Lu)

Lambe-Lambe

Posso dizer do limbo, 
que é espesso e antigo.
Limbo lambe-lambe
nas paredes do corpo
desabitado.

Tantas palavras para o Nada.
Para este lugar limbo-nada
que atravessa inaudito
os minutos desavisados

Posso dizer do limbo,
que é obediente e perpétuo.
Limbo lambe-lambe
nas paredes do corpo
amado.

O Nada ladra em mim
voluptuosamente
dia e noite
exigindo palavras:
humildade, coragem,
amor.

A vida como ela é

Memória é forro de linho
num chão de madeira.
Lareira acesa em sopro de deuses,
na espera surda d'uns amantes.
Que podem ser de qualquer
tipo, crê ?

Nome próprio

Meu pai me queria Renata, e foi o único desejo de nome que ouvi dele, cisma de liberdade - desde que corintiana. Meu avô me queria Marília, mas tinha que ter Gabriela, rima de inteligência. Esses nomes todos, gosto de descascá-los feito criança interpelando a fruta: de Renata, nata, que está no leite - quentura, manhã e silêncio. De Marília, mar e ilha, - vastidão e limite, solilóquio poético para existir. E Gabriela, porcelana, nunca-vou-casar, morreu. Mais forte foi minha mãe, que numa lírica de muitos anos, escorregou seu nome dentro do meu, marcando na raiz as asas que não tenho.

Jazz

























Aqui jaz um traço,
um percalço,
uma filigrama,
a umidade
de toda mulher.

Aqui um olhar abaixo,
um sentido,
uma mortalha,
há uma idade
para toda mulher.

Se Oriente



Dentro é assim

"Eu sei, quem ama muito é escravo.
Mas não obedece nunca de verdade."

(Guimarães Rosa, in não sei onde)

Retificação

Para o mesmo lugar, flores.
Para outro lugar, nomes.

Corpo

Quando posso, salvo muitos dedos de prosa em mim.
Pra não deixar de amineirar o corpo na terra mais terra do meu dentro.
Com pinga.

A mulher IN SISTE




















De quem são esses olhos?

Onde está ?




La bruja

“ Te penso.
E já não és o pensado.
És tu e mais alguém
No informe, nos guardados
Alguém
E tu mesmo sem nome, imaginado.

Te penso
Como quem quer pintar o pensamento
Colorir os muros do passado
De umas ramas finas, mergulhadas
Num luxo de tinturas
Te penso novo e vasto.
E velho
Igual a fome que tenho das funduras.”

(Hilda Hilst em Cantares)

A Razão Pura

Crítica da Razão Pura



segunda-feira, 4 de maio de 2009

Exercício de lembrar

Lembrar um espaço, num tempo, é assim:
Um frasco de pigmento fazendo ruído entre o pincél e a tela, 
tinha o cheiro do azul, mesmo quando caía no chão.
Uma vitrola arriscando em falso acordes do Satie,
dispunha da única possibilidade da nota. 
E significava.
Um Hopper, pra mim, sempre foi sem nenhuma esperança.
Mas eu amava.
As memórias do Manoel são inventadas.
As minhas não permitem verbos na mesma conjunção.
Eu sou desgarrada.

21 anos

Mas João, teu corpo é uma memória falsa.
Feito uma sombra imolada na minha escuridão.
E esse teu corpo santo cravando certezas na nossa irmandade
faz cores, ah, esse pano quente nos teus olhos ...
Que adormeceram tão cedo em mim.
(rua Tupi, um diário)

Feito Amor










Manga Rosa

A manga você gosta
a rosa róseo gosto
da boca na manga

Brincar,
Descascar risadas,
Salinas quentes

E na têmpora da fruta virgem
Surrupiar o 
vestido rosa,
Criança

Infância



















Douasa.
Fora da cama, ela me olha.
Perna alongada, distendendo as dores.
Quer respostas. Não tenho.
Mas perto dela, suavidade.
E a memória nossa, de meninas, é como um berço descansando os erros.
Amor alongado nos anos, estendendo braços, pernas, cabelos, bocas ...
Esta dança louca.
Dourada.

Paralaxias ...









Um cavalo vê as coisas oito vezes maior e angulosamente.
E você?

8 anos




















Mãe, se poesia é rimar a palavra
com o que a gente tá sentindo ...
o que acontece quando a gente
sente mais do que existem palavras ?

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Enquanto isso, pinte e borde ...

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Conjunção Lua, Vênus e Júpiter ...




terça-feira, 25 de novembro de 2008

Feito eu

"Quero voltar pra casa,
pro meu quarto, pra minha cama,
meu cachorro que me dê uma lambida.
Vida.
Quero voltar pro ócio
sem sócio, negócio,
desligue o holofote
porque eu já errei o passo,
desligue, desligue."

Elisa Nazarian

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pípi Meialonga

Tudo bem que os desenhos são da Lauren Child (eu já quis ser ela quando crescesse hehe) ... tudo bem que a Astrid Lindgren fez o livro para sua filhinha adoecida há muitos e muitos anos atrás ... e tudo bem também que ela lança mão do dom supremo das crianças, a imaginação, para construir uma menininha que flutua acima do ceticismo massacrante da educação.
Mas o fato é: Pipi Meialonga, a personagem mais cult do mundo infantil é (vamos admitir) uma pequena psicótica! Eu adoro o anarquismo dela, o charme das idéias, o jeito atrevido e ao mesmo tempo doce com que arruma alternativas para se safar do positivismo enfadonho do mundo, mas peraláaaaaaaa: ela faz uma saída pela direita muito perigosa se tomada ao pé do letra. Um exemplo meio duvidoso de coragem e onipotência que coloca muito perto do abismo crianças que já vivem engolidas no excesso de sentidos. Astrid Lindgren diz que faz livros para a criança que mora nela ... vamos relevar o fato dela ser sueca, gente. No Brasil de cada dia, nossas crianças rebolam. Ou não.

Ps: Mas que eu tenho vontade de levar esse livro para a escola da minha filha, tenho! Que lá eles ainda estão imersos no exercício do pequeno poder obssessivo ... e um tiquinho de psicose ia muito, muito bem "huahuahuahua".

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Enfie o desejo na função poética do medo

Gostar é através

Posto que se fez fonte, amor: saudade combina com silêncio.

A mulher não existe ???

"Esse linho trevoso, essa mortalha lunar sobre o meu rosto"

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Travessia

"Sempre sei, realmente. Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma coisa só - a inteira - cujo significado e vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver - e essa pauta cada um tem - mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? " Guimarães Rosa

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira, o filme

Fui ver Ensaio sobre a cegueira e sai com a sensação de ter visto um ensaio sobre o seu oposto. O filme é de um requinte visual - o ouro e o óbvio das boas publicidades - que, de cara, o torna cego para as surpresas que nos reserva o bom cinema. Recurso repetitivo que o diretor não cansa de plantar em seu jardim cinematográfico. Excessivamente fiel, diriam as más línguas.
Mas Saramago vence - olha o desatino! -. O texto da estória sustenta a retórica arredondada de Fernando Meirelles. Hollywood não faria melhor, apesar de que a Julianne Moore ficava melhor lá mesmo: ao menos linda, ao menos ruiva, ao menos indo em direção à claridade da janela rebolando plácida com o copo de leite Molico nas mãos e não com a tesourinha Hitchcock.
E quis tentar não ser rude, juro. Que de rude basta a pobreza da generalidade e a brancura da infância dos sentidos violando o gozo nosso de cada dia. Não à toa, o estupro das senhoritas mal cheirosas me disse tão pouco sobre as sombras humanas. A obviedade blinda a capacidade de se estarrecer diante dos horrores - houve holocaustos na nossa história que nos abriram bem os olhos. 
Sobrou pouco, para os meus. Mal derramei uma lágrima na linda cena em que o senhor pirata negro toca o coração da jovem madalena numa declaração pública que por cegueira se fez íntima ... e fui levada a conformar-me no amanhecer da visão oriental, porque reteve tudo na própria iconicidade: no mar de leite, a colher do real dissolveu todas as fantasias. Graças a Deus, ops, à Meirelles.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

dois mil e oito ...

"...Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.
Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância."

Julio Cortázar - Histórias de cronópios e de famas

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Mulher Maravilha

Eu confesso. Aos 6 anos a Lynda Carter era a minha ídala.
Foi numa noite-maravilha, muito inspirada por sinal, que o Papai Noel deu o ar de sua graça num vôo razante pelas minhas fantasias de menina. Corpete vermelho + micro short colante azul + laço mágico, braceletes e uma mega dourada faixa nos cabelos (arã, 6 anos) ... Uau, não é pouca coisa acordar Mulher-Maravilha !!! Sorte das meninas da geração 70, que tinham onde apoiar a morenice dos cabelos e as brasileiras curvas vindouras.
Entre a pasmaceira fútil da Barbie e as incríveis aventuras ao lado de amigos super heróis ah! ficamos com ela.

Ps: Mulher Maravilha, 3ª Temporada Completa, 8 DVDs - taí um presente de Papai Noel que muitas balzaquianas curtirão.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Um grou canta na sombra. Sua cria responde (I Ching)

Confúcio comenta a respeito dessa linha:

"O homem superior permanece em seu aposento. Quando ele se expressa adequadamente, em palavras, encontra aprovação mesmo a uma distância superior a mil milhas. Quanto mais da parte daqueles que estão próximos! Se o homem superior permanece em seu aposento e não se expressa adequadamente em palavras, encontra oposição mesmo a uma distância superior a mil milhas. Quanto mais da parte daqueles que estão próximos! As palavras brotam do interior de uma pessoa e exercem influência sobre os outros. As ações surgem próximo à pessoa e tornam-se visíveis à distância. Palavras e atos são como os gonzos das portas e a mola da besta do homem superior. Movendo-se, geram a honra ou a desgraça. Através de suas palavras e atos o homem superior move o céu e a terra. Não é então necessário ser cauteloso?". 

São estas palavras que me tocam.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Prelúdios intensos para os desmemoriados do amor - Hilda Hilst

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Uma pequena estrela nas estantes

Contracapa:
"Um menino, uma marionete, um homem de teatro e ... um lobo! Com estes quatro personagens e um enredo de grande poesia, A pequena marionete conta uma história de apelo universal, que envolve leitores de todas as idades. Empregando unicamente o lápis, o papel e uma boa dose de sensibilidade e imaginação, a artista belga Gabrielle Vincent criou um livro especial: uma narrativa sem palavras, na qual os desenhos permitem vários níveis de interpretação e se gravam no coração do leitor como só acontece com as verdadeiras obras de arte."

Valentina - Guido Crepax

Valentina, a mais charmosa personagem dos quadrinhos eróticos de Crepax. Demais.

Alice

"Depois, por súbito silêncio tomadas,
Vão em fantasia perseguindo
A criança-sonho em sua jornada
Por uma terra nova e encantada,
A tagarelar com bichos pela estrada
- Ouvem crédulas, extasiadas.
E sempre que a história esgotava
Os poços da fantasia,
E debilmente eu ousava insinuar,
Na busca de o encanto quebrar:
´O resto para depois ...´
´Mas já é depois!´
Ouvia três vozes alegres a gritar."
............................................................
Esta é uma edição comentada e fac simile de Alice no país das maravilhas e de Alice através do espelho. Impecável, cheia de intervenções curiosas nos rodapés e ilustrações originais de John Tenniel.

Hiroshima mon Amour

Este filme me acordou para o cinema aos 16 anos. A direção é de Alain Resnais, e o tema uma espécie de estréia da Nouvelle Vague. Para além das imagens, ouça o texto, da Marguerite Duras, que é absolutamente lindo.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Babel

Fantástico.
O diretor Alejandro González Iñárritu fecha com chave de ouro sua trilogia. Para quem não viu: Amores Perros, 21 gramas e Babel ... sem comentários ...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

andei a ouvir ...

Se essa rua, se essa rua fosse minha ...
eu mandava, eu mandava ladrilhar...
com pedrinhas, com pedrinhas de brilhantes,
para o meu, para o meu amor passar ...

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Certinências

"Só quando se tem rio fundo, ou cava de buraco, é que a gente por riba põe ponte ..." (Guimarães Rosa)

Semântica

Tem umas palavras que deixo guardadas em gavetas secretas.
E qdo perco a chave?
Aumento o vocabulário.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

e o vento levou

Alguns homens despertam o que temos de pior: a Scarlet O Hara adormecida em toda mulher.

A vida Clara da maternidade


"A minha Casa é guardiã do meu corpo

E protetora de todas minhas ardências.

E transmuta em palavra paixão e veemência."

(HH, júbilo, memória, noviciado da paixão)


A vida com ela é mais que líquida: sólida.

As aventuras de Azur e Asmar

Mais uma pérola do cinema infantil. Uma parábola árabe que encoraja novas perspectivas para o Mito do Graal. Aqui o Graal é a Fada dos Djins. E todas as instâncias simbólicas impregnando o filme através das lindas cores das feiras marroquinas, do movimento do mundo fantástico de bichos e superstições e pasme!, no alinhavo semântico que se dá através da convivência entre duas línguas tão diferentes (e o ajuste de contas entre dois irmãos).
Adoro filmes que não substimam a inteligência e a sensibilidade da criança. Esse, sem dúvida, faz parte deles.
** Na Livraria da Vila acaba de chegar um livro com as imagens do filme. O texto é tão tenebroso quanto a dublagem em português do filme, mas vale pelas imagens (copy and paste).

A rampa - Serge Daney - cahiers du cinéma 1970-1982

"O cinema é então em parte ligado à tradição metafísica ocidental, tradição do ver e da visão, na qual parece realizar a vocação ´fotológica´. O que é a ´fotologia´? Poderia ser o discurso da luz? Um discurso teleológico certamente, se é verdade que a teleologia consiste em neutralizar a duração e a força em favor da ilusão do simultâneo e da forma (Derrida)."

A rampa: temos aqui o pensamento enviezado (e atávico) de Serge Daney, numa propulsão magnífica tela adentro. Juntando seus melhores textos sobre cinema publicados nos famosos Cahiers du Cinéma, ajustados num período específico (1970-1982) e pensados sobre o tapete do estruturalismo francês.

"Assim herdávamos a aporia que vem daí. Porque aquilo que permite a esse olhar dirigir-se - a tela - torna-se objeto impossível. Ao mesmo tempo, esconderijo e janela, abertura e hímen. Invisível, torna visível; visto, torna invisível."

Está a venda na 2001 mais próxima de você. Para os cinéfilos, os críticos e um mais ainda da coletividade.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Gotan Project - Lunático


Doze faixas de tango e música eletrônica misturados de um jeito delicioso. O grupo é parisiense, mas é claro que há um argentino temperando tudo.
Dance !!!

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Codinomes

Com tantos pianos fortes na família, minha filha quer violino. Ufa.

http://www.youtube.com/watch?v=3jey-OmaKUM

** Meninas, a Vanessa Mae deixa a Vanessa Hudgens (HSM) no chinelo em todos os quesitos necessários a um bom ídolo: linda, talentosa e carismática !!! Quando eu crescer eu quero ser ela :)

Grupo Galpão ..

"O céu se serviu do amor e fez todos castigados.: os Montéquio e os Capuleto, por fraterna dor irmanados, findaram as discórdias e um a outro abraçados, prometeram-se em louros lado a lado estátuas aos filhos eternizados. No definitivo da história, Romeu Lua e Estrela Júlia celebraram o circo céu das paixões abrindo livre vereda no dentro do ferro das prisões. O sinhô siga, pois então caminhozinho seu, enquanto eu desarmo o miúdo circo meu, para noutras praças cantar a sorte mais triste que já aconteceu. O baralho de amor e morte da tragédia de Julieta e de Romeu. " (faixa 11)

Lindo, lindo, lindo, lindo, lindo. Se eu fizesse teatro, eu queria fazer o que eles fazem. Lúdico, itinerante, poético ... os mineiros cavam na própria terra um jeito muito deles de fazer arte. Neste cd, duas peças. Em Romeu e Julieta, o grupo editou as músicas mais bacanas das nossas serestras antigas, adaptando-as ao texto de Shakespeare. Delicado e surpreendentemente brasileiro. Em A Rua da Amargura, um olho no aspecto mambembe das procissões católicas, adaptado na paixão de cristo mais genuína da nossa terra.

** Tanto este cd quanto os dois dos Meninos de Araçaí estão finalmente a venda na Livraria da Vila. Corram.

Meninos de Araçaí ... o belo horizonte das canções


Joni Mitchell: Hilda Hilst da música ...musa




quinta-feira, 8 de novembro de 2007

O que você escutou aí dentro?

Música signo da mãe: Shubert Impromptu Op.90 No.4
http://www.youtube.com/watch?v=RtZCVCw337U

Música signo do pai: Chopin - Fantasie Impromptu
http://www.youtube.com/watch?v=f9wYk0bQJbo

Música signo da filha: Corpse Bride
http://www.youtube.com/watch?v=s7A7ZFf9zjs

Glenn Gould

Dê uma navegada no youtube atras de Glenn Gould. O intérprete que nao se define. As fugas de Bach dele sao muiiiiito interessantes. Aliás so ele pra acordar Bach no state today dos ouvidos contemporâneos hehe.
Um Mozart
Um Bach
** tem um filme: ' 32 pequenas cenas sobre Glenn Gould ' que vi no cinema uns 10 anos atras e nunca achei em DVD. Se alguem souber ...

A Barriga do Arquiteto: Meta Greenaway

Um dos primeiros filmes de um cineasta que prima pelo rigor estético, A Barriga do Arquiteto é um legítimo avant guard. Cheio de plots simbólicos, temos uma narrativa clássica sendo digerida ao longo da história. Um arquiteto americano chega à Itália para organizar uma exposição de um arquiteto francês [Boullé], que é o ícone de toda sua formação. O personagem fica então colado num espelhamento obsessivo que vai se desenvolvendo ao longo do filme - que se funda através de dialogismos: construção e corpo, morte e nascimento, originalidade e simulacro.
O personagem começa engolido no seu sintoma: obcecado por sua própria barriga, a narrativa vai se produzindo durante os nove meses de gestação – da exposição, do filho e da doença. É assim que o filme apropria-se da idéia de tempo para amparar todo seu desenrolar conceitual. Dividindo-se em 7 etapas, o roteiro inscreve na película a própria história da arquitetura visionária de Roma – sujeito protagonista parindo novas estéticas, incluso o filme, portanto, meta-arte, num paralelo claro entre cinema e arquitetura. Gosto de pensar também na estrutura-metrônomo desse filme, em três paradigmas: A imortalidade, o estado voyeur a que o ser humano é submetido na fração de vida que lhe é concedida e em como a escolha da neurose configura sua condição de signo.
"A imortalidade é possível graças à arte e as criações humanas?"
Esta parece ser a pergunta que o cineasta elegeu. Portanto, a questão da imortalidade trabalha no câncer de intestino desse personagem. E também em toda a cadeia significante que pode ser construída ao longo do filme.
Primeiro, os desenhos de Boulée são significantes claros das formas arredondadas da mulher. São úteros, muitas vezes gravídeos, que aparecem nas imagens de seus desenhos. Em muitas cenas do filme as formas arquitetônicas arredondadas dos monumentos de Roma são retomadas em simetria com os seus desenhos. Há também convites claros para significados óbvios: torres, pirâmides e outros símbolos fálicos atravessando em pano de fundo. O filme começa, aliás, dentro de um típico símbolo fálico: um trem. Um trem adentrando Roma. Dentro da cabine, o casal protagonista está transando e uma imensa janela de vidro tem as cortinas abertas (referência à pulsão escópica de novo). Esta é a primeira cena do filme. É a cena geradora. Aliás é a cena em que eles geram o filho.
O espaço cinematográfico é, por excelência, o espaço do voyeur. Torna público e observável o que é privado e secreto. No filme há outra cena que remete particularmente a este estado de voyeurismo: o arquiteto e um menino que assistem pela fechadura de uma porta uma cena de adultério. Nesse momento, vinga o desejo de comentar – no interior e no exterior do contexto cinematográfico – a condição escópica a que ficamos humanamente submetidos (isso também é paradigmático quando pensamos que o filme gira em torno do tema de uma Exposição.)
Temos também um personagem/arquiteto que é um glutão. Insaciável na sua inconformidade a respeito da própria mortalidade começa a repetir a compulsão por comida numa cadeia de evocações miméticas da própria barriga. À medida que vai adoecendo a mente nessas questões, vão tomando corpo uma série de repetições de imagens da barriga de uma escultura que ele xeroca, desenhando sistematicamente nessas cópias os alimentos que ele mesmo ingere e reproduzindo cópias sem parar. Ele gesta a própria neurose numa metalinguagem impressionante. Converte a gravidez da mulher (para a qual ele é cego) no próprio corpo invertido. Quem cresce no seu ventre não é um filho, mas um câncer - que não deixa de ser uma forma autônoma de doença, portanto um sujeito -.
Num registro intencional do desenvolvimento de sua obsessão, passa a relatar, a inscrever (não é esse o desejo do artista?) no corpo da história (representada por Boulée) sua própria história. Este contato paranóico delirante (cartas a um ídolo morto) aplaca sua angústia de mortalidade. Tudo no filme acontece em espaços amplos, abertos, numa contraposição interessante com o espaço comprimido da barriga. Condenados na dialética. Temos um homem aprisionado no próprio narcisismo e na própria impotência – qual maior castração humana senão a morte? Nada para este personagem é cognoscível. Nada resta. Para não perder o filho/inscrição que cresce no ventre da mulher é que ele decide pelo suicídio. Garante sua continuidade metafísica na sucessão espiritual – e natural - do filho que chega. Que nasce no momento de inauguração da exposição. Signo dado a ver. Ele, sombra desnorteada que perambulou sendo destituído de recursos a história inteira, constrói a sua do alto do parapeito de um monumento. Retira do paletó objetos pessoais e deposita-os no muro a sua frente. É assim que ele circunscreve-se na imortalidade da construção arquitetônica: tornando-se uma. Seu happening: da própria barriga para o mundo, eis a cena dupla desse momento! Seu movimento psíquico é o mesmo. Incapacidade metafórica pura, este homem precisa reter seus símbolos no corpo físico. Inverte isso na cena final: momento em que ele - mais uma vez numa elucidação escópica - se coloca acima a olhar para baixo, lançando-se para trás (ou pra frente?) num suicídio reparador.

Memórias Inventadas - A infância, por Manoel de Barros

" (...) Nunca escondi aquele meu delírio erótico. Nunca escondi de meus pais aquele gosto supremo de ver. Dava a impressão que havia uma troca voraz entre a lesma e a pedra. Confesso, aliás, que eu gostava muito, a esse tempo, de todos os seres que andavam a esfregar as barrigas no chão. Lagartixas fossem muito principais do que as lesmas nesse ponto. Eram esses pequenos seres que viviam ao gosto do chão que me davam fascínio. Eu não via nenhum espetáculo mais edificante do que pertencer ao chão. Para mim esses pequenos seres tinham o privilégio de ouvir as fontes da Terra." (Iluminura número 5)

Saudades do meu avô.

É ladrão de mulher ...

Na verdade o livro rouba o coração das crianças também. As imagens são lindas, o recorte histórico é super bacana e a homenagem emociona.

Tá a venda lá no Galpão. O meu eu não empresto.





Solas de Vento

Les hommes aux semelles de vent
Teatro Gestual pela Cia Solas de Vento
"Com elementos de dança e técnicas circenses, o espetáculo aborda uma situação de convivência forçada entre dois estrangeiros, suspensos em suas malas, questionando o modo de olhar o 'Outro' ".
Criação: Bruno Rudolf e Ricardo Rodrigues
Direção: Rodrigo Matheus
Teatro do Sesc Ipiranga, quartas, as 21h.
A galera ensaia no Galpão do Circo e ficamos com água na boca !!!
Eu e Maricota iremos burlar a faixa etária de 10 anos. Rendam-se :)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

1. mulheres do mundo ; 2. homens do mundo

Dove: http://www.youtube.com/watch?v=iYhCn0jf46U
Paródia: http://www.youtube.com/watch?v=7-kSZsvBY-A

To Christ it

Javaceff Christo (1935), artista búlgaro, apropria-se da geografia, do entorno, em intervenções realizadas no espaço público: ele embrulha, com telas ou tecido, monumentos, construções arquitetônicas, objetos comuns, trazendo à memória circundante um lapso significante inusitado e provocativo. O espaço geográfico como campo contaminado de subjetividades, é lugar de inscrições. O artista retoma os ready mades de Marcel Duchamp, retirando do objeto sua função primária para inscrevê-lo no campo simbólico.

Ao lado, uma polaroid de uma série que fiz com um amigo em 1998, de barracas de camelô espalhadas no centro da cidade de São Paulo. As barracas são embrulhadas em lona azul diariamente para que fiquem protegidas durante a noite. A série elabora um enunciado significante (a barraca azul como obra) que dialoga com o manifesto artístico de Christo, numa brincadeira poética. A periferia do discurso visual não remete a nada, é horizontal. Mas é no ruído gerado pelas imagens e na livre associação que a gramática de um sentido é adquirida.

** Em Paris, virada de 1999/2000, Christo fez embrulhos lilases, transparentes, nas árvores ao longo da av Champs Élysées ... andávamos e imagens de filmes eram projetadas nessas árvores, entidades a devir. E deslizávamos como dentro de um cristal. Deslumbrante. Interessante: um dia antes do Reveillon do século, um tufão devastou boa parte de Paris. E os véus lilases de Christo acabaram sudários no chão. A natureza também faz narrativas!

Jan Saudek e a escritura do absurdo

Desde a época da faculdade fui tomada pelas imagens deste fotógrafo para nunca mais largá-las. Ele cria as cenas-mitos que vai registrar, para enunciá-las num discurso estético desestabilizador. Evoca imagens arquetípicas da humanidade nossa de cada dia e as enreda num tom melancólico e irônico.
Melancólico, porque opta por um risco dissonante ao usar ecoline sobre as fotos, numa referência nostálgica ao que vamos pintando sobre nosso desamparo original. Irônico, porque ao compor suas partituras visuais, ele brinca com o grotesco sob a forma do belo.
Tcheco, Jan Saudeck passou anos trabalhando numa fábrica , driblando a pobreza e o sistema político de seu país ao fotografar amigos, vizinhos, especialmente mulheres gordas, homens bizarros e crianças, todos nus. É como se ele retirasse as imagens do inconsciente, mas num contato muito elaborado com as fantasias: diferente dos surrealistas.
Ecolinizando sua própria nudez, o artista se vestiu.
E que magnifíco guarda-roupa nos foi dado a ver.

** a Tashen lançou recentemente uma edição especial incrível, enorme, com uma coletânia primorosa das melhores fotos. Infelismente custa 290 reais na Fnac. Mas custa 54 dólares na Amazon. Se alguém se habilitar ... me avise.

Caixa de Pandora

"O olho grande da menina
é um pequenino olho grande
que acende a luz daquela estrela
e aquela estrela é a mais distante

Não tenha medo vovó, não tenha medo mamãe,
há muito tempo que eu não via assim ...
tá lá no livro tintin por tintin
pirlimpimpim ..."

Genteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee ...
alguém aí se lembra disso?

** ah, a Som Livre lançou o divertido Plunct Plact Zuumm com o ambulante Raul Seixas. Pegue carona nessa cauda de cometa lá na
Livraria da Vila ...

Lavoura Arcaica: um chão de tangerinas incendiadas

"Para onde estamos indo? – não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um ruído rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida; 'estamos indo sempre para casa.'." (Raduan Nassar, in Lavoura Arcaica: 36)

Baseado na obra homônima de Raduan Nassar, Lavoura Arcaica é uma consagração lírica da condição humana em forma de tragédia. O retorno do filho pródigo que, por ironia (ou desgraça), põe `as avessas a casa do pai. Em cena, temos André, o filho desgarrado, resgatado pelo irmão mais velho e reconduzido ao seio da família. É um retorno espiralado de fluxos e refluxos a esparramar em palavras a essência do proibido. É aqui que Pedro é atirado sem dó na factualidade do desejo, lançado na memória de um que foi tragado pela escolha de afeto da Mãe e acabou consumido no amor incestuoso pela Irmã.
Um filme que captura o espectador para uma avassaladora viagem poética, cuja passagem se compra logo na primeira cena - metáfora íngreme dessa história: a expressão dolorosa de André, numa busca desenfreada do si mesmo, desintegrando-se no ato da masturbação. Na penumbra do quarto de pensão, incidências de luz casam-se com sons de um trem trespassando a cena, foco e desfoco andando pelas partes fragmentadas do seu corpo. É luz e sombra, angústia e prazer, num passeio do olhar (o nosso) pela pele difusa de André.
É deste momento que eclode toda a memória do filme: entrave erótico, lírico, mítico e porque não um comentário sobre a função da palavra incindindo sobre um mundo ainda sem nome e por isso mesmo tão potente – porque irrestrito -.
Inscrições fundantes do mundo das imagens (mãe) e do mundo das palavras (pai), temos um fluxo da subjetividade em claro escuro numa fotografia que acompanha as expressões pulsionais do personagem, sendo ora essa claridade da infância ora a sombra obscura do seu adolescer, num jogral que entumece a vista do espectador não só em pura sensação estética, mas em identificações coladas nessas manchas animadas do desejo.
Assim, para além da origem árabe e mediterrânea desta família (que insere um sentido de cores terra cota, musicalidade hipnótica e um comentário sobre a linhagem religiosa do pai), esta lavoura é arcaica porque é um antes que trata do mito original de toda humanidade.
São essas supressões de limite - interdito do incesto -, numa cúmplice concessão aos desejos humanos, alargada em argumentos de liberdade, alegria e sensualidade que enlaçam o enredo do filme. É a brandura muda de Ana, sua trapaça. É a travessia da sua imagem mítica em toda sua potência dual que emerge da terra 'dominando a todos com seu violento ímpeto de vida' . Não importa muito sua morte pelas mãos do pai na cena final. Ela permanece.

Blue II

Voltando da viagem anterior ... de fato em todas as fotografias da minha infância eu estive vestida de azul. Tudo meu foi azul, botas, batas, meias-calça, vestidos, bonecas, camisetas, pelúcias e o tapete do quarto. Tudo azul.

Engraçado: blue também é triste...
Sin-signo ?

Nem Freud, nem Lacan: Yves, viva !

Blue I


Estou relendo meu livro do Yves Klein. Além de dar de presente à alma da gente o azul luminoso das verdades transcendentais que a arte dele endossava - oui, inventou uma nova luz para a cor azul, é química, portanto, ciência -, ele voou factualmente entre o céu e a terra. E registrou. Apenas pra mostrar que é possível.
Minhas duas paixões agarradas em um só: o azul e o voar.
Nada emudece o tempo como um vôo de paraglyder ... e a vista atravessada de azul. É como orgasmo, mas tchannnn: dura mais hehe. Por isso é melhor escolher dias claros como os da primavera. O céu é azulíssimo e os ventos, geralmente favoráveis.
Para dias chuvosos como o de hoje vale um chocolate bem forte e ... se não tiver namorado para caminhadas sensoriais inusitadas por lençóis bem brancos então lance mão de uma boa câmera fotográfica ... dias cinzentos e aguados favorecem fotografias bemmm bonitas. Através de janelas, principalmente.

Mi casa, su casa

Eu gosto de decoração porque ela aciona uma metáfora incrível. Faz uso da memória retida nas coisas e tem um poder que nem sempre nos é acessível por outras vias: faz intercâmbio de significados debaixo do chão que você pisa e bem nas quinas das paredes que você pinta. Um lenço branco bordado, deitado no criado-mudo, ultrapassa a própria história para virar cama de terço. Que veio lá de Jerusalém. Os broches, de pano vermelho da avó e de cristais coloridos da mãe, foram fazer enfeite no abat-jour da outra linhagem da família. Ironias. Não é privilégio das coisas serem revestidas de funções inusitadas só porque o banco virou mesa? Não retiramos da arte esse poder regenerador, esse perfume âmbar misturado à acústica das nossas angústias mundanas? É por isso, meu caro, só por isso, que mi casa não é su casa.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

sintaxe do amor

Eu
Tu
Ele
Nós
Vós
Eles

E um sujeito oculto conjugando verbos ...
(De todos, sou mais nós do que vós ...)

fragmentos de um discurso amoroso {tudo}

"Porque a gamação precisa do signo do repente – que me torna irresponsável, submetido a fatalidade, levado, raptado - ... o imediato vale pelo pleno...sou então iniciado" (RB)

domingo

domingo
as mães gostam de se enfiar debaixo de um cobertor pra ler um livro bonito
as mães gostam de ficar em silêncio
as mães gostam de deitar o pensamento em sensações bem bobas
como fome, arrepio, cheiro, mãos nos cabelos ...
domingo
as mães respondem com preguiça
as mães respondem com tristeza
e ficam pequenininhas
e ficam de pijamas velhos
e ficam querendo as filhas contidas nesse dia estranho
como borboletas: silenciosas e leves

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O Primo Basílio e a bem aventurança da moral da história

Há sim, fórmula do fracasso. A tábula rasa dos esteriótipos. O pecado mora mesmo ao lado (da Rede Globo). E que pecado: Eça de Queiroz deve estar se espremendo no caixão. Sua Luísa frágil, doente, ressequida de ventre ... não era isso? Aquela que amarga a descoberta do feminino na virada do século XIX e todas as reverberações do ato de ser mulher. Sim, era isso. Pois foi resumida numa histérica fútil que descobriu com o primo bonitão o que é uma boa sensualidade, pra não dizer trepada. E ainda morre por isso, não nisso.
Linda cenografia, lindos vestidos, linda interpretação da Débora Fallabela. E só! Ok, o Gianekini tá ótimo com aquele sotaque paulistano e melhor ainda quando pronuncia palavras caras `a sua ave noturna. Com um marido desses eu esperava um primo melhor. Mas temos ainda o pior: a publicidade do filme teve a coragem de lançar mão da dramaticidade de um Nelson Rodrigues para adjetivar o cotidiano pequeno burguês do casal protagonista, o que é uma infâmia: poucas vezes assisti a um filme tão moralista! E, ao contrário do que pensam as feministas, nunca houve um escritor tão femininamente despudorado, graças a Deus, obrigada. Aliás donde veio a brilhante idéia de achar que um autor tange o outro? (da WBrasil alôalô?)
De fato: o filme que não disse a que veio. Remedou o livro sem assumir riscos. Eu disse riscos, não risos. Dobrou, passou e colocou no fundo do armário a complexidade de cada um dos personagens, esvaziando todos numa troca de posições formais, e ponto. Uma penaaaa. O Primo Basílio do meu imaginário adolescente tinha toda a força do realismo português e... ah, a Marília Pêra estupenda como Juliana.
Menos coreografia do amor ... e mais densidade. Inclusive nas cenas eróticas.
Mas vá ver esperando isso: cartilha, pequeno dicionário amoroso, novela ... qualquer coisa assim. Se vc for a tarde pode valer pelos comentários das velhinhas que me fizeram companhia no cinema: ai, nossa, como ela é burrinha ... onde já se viu esquecer a calcinha que usou com o amante atrás do sofá, minha nossa !!!! Ufa, pode ser bom pra memória! As senhoras agradecem.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

algumas pérolas

"Farejo o desnecessário pelo hábito da cadeia alimentar"

"E a palavra, artimanha
da minha língua na sua boca."

"Você vai e desmancha o desejo
Na função poética do medo"

"De estar no meio do caminho quando precisava
estar no meio dos braços, acolhida, coberta, bebida."

terça-feira, 19 de junho de 2007

Sra D de derrelição

"Não compreendo o olho e tento chegar perto.Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a sangrenta lógica dos dias, nem os rostos que me olham nesta vila onde moro, o que é casa, conceito, o que são as pernas, o que é ir e vir, para onde Ehud, o que são essas senhoras velhas, os ganidos da infância, os homens curvos, o que pensam de si mesmos os tolos, as crianças, o que é pensar, o que é nítido, sonoro, o que é som, trinado, urro, grito, o que é asa hein? Lixo as unhas no escuro, escuto, estou encostada à parede no vão da escada, escuto-me a mim mesma, há uns vivos lá dentro além da palavra, expressam-se mas não compreendo, pulsam, respiram, há um código no centro, um grande umbigo, dilata-se, tenta falar comigo, espio-me curvada, winds flowers astonished birds, my name is Hillé, mein name madame D, Ehud is my husband, mio marito, mi hombre, o que é um homem?"
... um copo de hilda hilst, s' il vous plaît ?!!!

segunda-feira, 4 de junho de 2007

E entrou por uma porta, saiu por outra e quem quiser que conte outra ...

Olha
a janela
da bela
Arabela
Que flor
é aquela
que Arabela
molha?
É uma flor amarela
[ Cecília Meireles,
Ou isto ou aquilo]
O povo daqui anda achando graça das minhas postagens.
É preciso achar o criançamento das palavras - não fui eu, foi o Manoel de Barros.
E que eles esquecem que depois do mundo underground (nõnõ, as raves vieram depois) eu cai de paraquedas no mundo da maternidade. E descobri que há um brilho único na infância que merece ser apreciado. Não estou falando apenas do que vc descobre dentro desse amor doido por um filho. Mas de algo que é se colocar ao lado deles, do tamaninho deles, olhando pra esse mundão afora ... ok ????????

e o palhaço o que que é?


Leve e despretensioso, uma delícia para alimentar a criança que dorme em você !

sexta-feira, 1 de junho de 2007

frio + chocolate + o que vc quiser


As palavras e as coisas

"a boca não fala
o ser (que está fora de toda linguagem):
só o ser diz o ser
a folha diz folha
sem nada dizer
o poema não diz
o que a coisa é
mas diz outra coisa
que a coisa quer ser
pois nada se basta
contente de si
o poeta empresta
às coisas sua voz - dialeto -
e o mundo
no poema se sonha completo"

Ferreira Gullar
http://portalliteral.terra.com.br/ferreira_gullar/biobiblio/index.shtml?biobiblio)

(pós) erotismo

http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2673,1.shl

quinta-feira, 31 de maio de 2007

descoberta II

Marimari, linda flor da manhã, obrigada por descobrir este Eduardo Galeano. É por essas e outras que sabemos que a vida não vai cair para além do chão florido.

"As coisas caem dos meus bolsos e da minha memória: perco chaves, canetas, dinheiro, documentos, nomes, caras, palavras... Eu ando de perda em perda, perco o que encontro, não encontro o que busco, e sinto medo de que numa dessas distrações acabe deixando a vida cair."

blue moon: hoje, da janela mais próxima de vc


5:55 charlotte gainsburg : lindo!


atender ou não atender, eis a questão

Todos os meus amigos sabem, eu adoro tecnologias de comunicação. Sou fã do mundo binário desde que ele me foi apresentado. Mas todos eles também sabem que sou uma pessoa rebelde quando a questão é privacidade e liberdade. Portanto, minha relação com os aparelhos portáteis como telefones, ipods, palms é ambígua. Eu gosto de imaginar que eu mando neles, e não o contrário. Acho horroroso isso de ter que estar 24 horas disponível através de um número. Também acho um saco ter que personalizar tudo, numerar músicas, ter 56 avatares diferentes e construir auto-imagens portáteis o tempo todo. E se trancar neste casulo narcísico. Ou num vácuo onipotente como o second life (que seduz muito).
Vamos lá gente! O que tem de errado com a boa e velha vitrola tocando a mesma música pra casa inteira? Porque minha filha de 6 anos tem que ter um desejado mp3 player pra ouvir suas músicas sozinha quando a casa pode compartilhar isso com ela? E os celulares? Você não pode mais se dar ao luxo (e que luxo primário não?) de desligar-se do mundo porque o mundo inteiro te acha em qualquer lugar. Se alguém quer falar com vc, vc não tem o direito de denegar!!! É falta de educação. Desculpe, acho que a menininha que mora em mim faz birra com esse tipo de estatuto contemporâneo do plug and play. No fundo é a mesma Alesi de carne e osso que não gosta muito de dispositivos mágicos - eu sempre achei a disneylância muito chata: prefiro um copo de vinho.
Ps: na contramão disso tudo, confesso que adquiri um blackberry incrível. Se eu estiver na floresta amazônica eu baixo e mando meus emails por um pacote acessível de 80 reais por mês. YES !!! Mas é um viciozinho pequeno. Continuo achando celulares uma antipatia.

que tipo de fada você é?


quarta-feira, 30 de maio de 2007

Dez Chamamentos ao amigo - Hilda Hilst

"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.

[Poesia: 1959-1979 - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]
Nenhuma outra poeta me abduziu como ela.

As Bicicletas de Belleville

Eu olho esta imagem ao lado e tenho vontade de ficar apenas quieta. Assim são todas as imagens desse delicado filme sobre a vida como ela é. Não a toa, é um filme quase mudo. E com uma trilha sonora desbundante.
A história, recheada de humor e bizarras estravagâncias, é um tributo `a resistência. Ufa, há esperança para outras formas de fazer cinema. Penso nesta animação como um metafilme. Um núcleo que destrincha embates conceituais mesmo, a começar pelo próprio nome, belleville-hollywood. Se você prestar atenção verá inúmeros trocadilhos ao longo das cenas.
Fora isso, diverte pelo inusitado, pelas propostas originalíssimas (e as trigêmeas assumindo as rãs sem o menor constrangimento?). Vale cada minuto da sua atenção. Eu comprei.
Um filme de Sylvain Chomet
Música de Ben Charest França - Canadá - Bélgica
Indicado para dois Oscars em 2004: Melhor Desenho Animado (perdeu para Procurando Nemo) e Melhor Canção — Belleville Rendez-vous (perdeu para a canção de O Senhor dos Anéis)
Selecionado para o Festival de Cannes (2003)

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